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Werther e Norwegian Wood: dois livros sobre suicídio



Os livros Os sofrimentos do jovem Werther, de Goethe, e Norwegian Wood, de Haruki Murakami, fazem parte do Projeto Lendo o Mundo.

As duas últimas leituras que fiz para o Projeto Lendo o Mundo acabaram tendo temáticas parecidas. Para a Alemanha, escolhi Os sofrimentos do jovem Werther, livro sobre o qual ouvi falar no colegial. A única informação que mantive em mente era que as pessoas se matavam depois de ler o livro. Bem leve, hein?

Romance epistolar, o livro foi publicado em 1774, sendo um espelho da vida e dos costumes burgueses europeus. Werther, longe de sua família, comunica-se com Whilhelm através de cartas. Nela, ele conta como está apaixonado por Charlotte e muito triste por ela estar noiva de Albert. 

Durante vários momentos me peguei lendo e sentindo um aperto no peito por conta do sofrimento do personagem. Ao mesmo tempo, queria sacudir a Charlotte e fazê-la parar de iludir Werther. 

Para o Japão, o livro lido foi Norwegian Wood, do escritor Haruki Murakami. Publicado em 1987, vendeu 4 milhões de cópias só no Japão e alçou Murakami à condição de ícone cultural. No romance, conhecemos a história do estudante Toru Watanabe, na Tóquio do fim dos anos 60 e começo dos anos 70. O personagem - que também é o narrador do livro - mora em um alojamento estudantil só para homens e tem sua vida marcada pela morte de pessoas próximas. Seu melhor amigo, Kizuki, comete suicídio aos 17 anos e, mais para frente, ele reencontrará Naoko, a namorada de Kizuki. Marcada pela perda do namorado, Naoko sofre de transtornos psicológicos, fato que aproximará mais os dois.

Os dois livros tratam do suicídio. No primeiro, Werther sofre por amor, não aguenta viver vendo a mulher amada com outro homem. No segundo, várias personagens passam por esse questionamento frente à vida. A maioria delas está na fase de transição para a vida adulta, com seus 20 anos, assim como o jovem Werther, de Goethe. Na época em que Norwegian Wood se passa, a atmosfera política no mundo também era tensa e isso refletia na forma como os jovens viviam e enfrentavam o futuro.

Sobre os autores
Johan Wolfgang von Goethe foi autor e estadista alemão. É uma das mais importantes figuras da literatura alemã e do Romantismo europeu. Com Friedrich Schiller, foi um dos líderes do movimento literário romântico alemão Sturm und Drang.
Com Os sofrimentos do jovem Werther, tornou-se famoso em toda a Europa. Sua obra-prima é o drama Fausto, publicado em fragmento em 1790, depois em primeira parte definitiva em 1808 e numa segunda parte em 1832, ano de sua morte.

Haruki Murakami nasceu em Kyoto, em 1949. Escreveu o seu primeiro romance - Ouça a canção do vento - em 1979, mas seria em 1987, com Norwegian Wood, que o seu nome se tornaria famoso no Japão. Influenciado pela cultura ocidental, Murakami traduziu para o japonês obras de F. Scott Fitzgerald, Truman Capote, John Irving e Raymond Carver.

Outros autores alemães
Thomas Mann: A Montanha Mágica
Herman Hesse: Demian, Sidarta
Ingo Schulze: Vidas Novas
Wladimir Kaminer: Balada Russa
Andrea Maria Schenkel: Tannöd
Thomas Brussig: O Charuto Apagado De Churchill
Siegfried Lenz: Minuto de Silêncio
Juli Zeh: Juncos
Petra Hammesfahr: Um plano quase perfeito
Daniel Kehlmann: A medida do mundo
Robert Löhr: A manobra do rei dos elfos

Outros autores japoneses
Yukio Mishima: Confissões de uma Máscara; Mar Inquieto
Hiromi Kawakami: A Valise do Professor, Quinquilharias Nakano
Yoko Ogawa: Hotel Íris 
Yasunari Kawabata: O País das Neves  
Banana Yoshimoto: Kitchen; Tsugumi; Lua-de-mel
Hitomi Kanehara: Cobras e Piercings 
Genichiro Takahashi: Sayonara, Gangsters
Ryu Murakami: Miso Soup
Koushun Takami: Battle Royale

Lendo o Mundo: Vozes de Tchernóbil e os relatos sobre a maior catástrofe nuclear da história



Vozes de Tchernóbil faz parte do Projeto Lendo o Mundo.

Em 26 de abril de 1986, à 1h, uma série de explosões destruiu o reator e o prédio do quarto bloco da Central Elétrica Atômica de Tchernóbil, situado na Ucrânia, próximo à fronteira da Bielorrússia, país em que Svetlana Aleksiévitch, autora de Vozes de Tchernóbil, viveu a maior parte de sua vida.
Primeiro livro da autora lançado no Brasil pela Companhia das Letras, Vozes é um conjunto de relatos crus e realistas sobre os acontecimentos que se seguiram após a explosão. Svetlana começa sua narrativa com o relato de Liudmila Ignátienko, mulher de um dos bombeiros chamados para apagar o incêndio na Central. Toda a brigada saiu com as roupas que tinham no corpo, sem nenhuma proteção. Não sabiam a gravidade do incêndio. Mesmo grávida, Liudmila subornou guardas e conseguiu entrar no hospital para cuidar de seu marido. Os bombeiros foram levados para Moscou e morreram 14 dias após o acidente, devido às altas doses de radiação.
A voz feminina é muito presente no livro, tanto por conta das inúmeras mulheres que perderam seus pais, mães que perderam seus filhos, cientistas que falam sobre o assunto. São as pessoas que participaram da tragédia e ficaram. Como nas guerras, muitas mulheres sobreviveram e puderam contar suas histórias.

“A minha filhinha me salvou. Recebeu todo o impacto radiativo, foi uma espécie de receptor desse impacto. Tão pequenininha. Uma bolinha. (Suspira.) Ela me salvou. Mas eu amava os dois. Será… Será possível matar com o amor? Com um amor como esse! Por que andam juntos, amor e morte? Estão sempre juntos. Alguém pode explicar? Alguém tentaria? Eu me arrasto sobre a tumba de joelhos…”

O governo soviético não queria que o pânico se espalhasse e, assim, faltavam informações aos moradores das áreas próximas à Central. A cidade Pripyat, a quatro quilômetros de Tchernóbil, teve que ser totalmente evacuada e hoje recebe turistas que visitam os prédios abandonados e totalmente tomados pela natureza. Construída na década de 70, Pripyat era uma cidade moderna, as pessoas que trabalhavam lá recebiam um salário maior do que trabalhadores de outras regiões. Era o milagre da energia nuclear.

Grupo de liquidadores em 1988. Fonte: The Chernobyl Gallery 

Várias aldeias também foram evacuadas, inclusive fora da Ucrânia. Na Bielorrússia, com uma população de 10 milhões de habitantes que trabalhava predominantemente em propriedades rurais, foram 485 aldeias perdidas depois de Tchernóbil. Setenta estão sepultadas sob a terra.
O sepultamento de casas, entre outras atividades, era feito pelo chamados “liquidadores”, pessoas convocadas pelo governo soviético para limpar a área próxima do reator (ou nem tão próxima assim). Cerca de 600 mil pessoas foram chamadas e expostas a altos níveis de radiação.

“Enterrávamos terra na terra. (...) Ninguém podia entender aquilo. Segundo as instruções, o enterramento deveria se realizar depois de uma prévia exploração geológica, de modo que as águas subterrâneas estivessem a uma profundidade de quatro a seis metros abaixo da vala e que as paredes e o fundo da vala fossem cobertos por plástico. Mas essas eram as instruções. Na vida as coisas são diferentes, claro. Como sempre. (...)
Apontavam com o dedo:
‘Aqui, cave’. E a escavadeira cavava.
‘Qual a profundidade cavada?’
‘O diabo é quem sabe. Se aparecer água, eu largo tudo do mesmo jeito’.
Descarregavam diretamente nas águas subterrâneas.”

Átomo da guerra e átomo pacífico
O acidente em Tchernóbil aconteceu alguns anos antes da queda da União Soviética (1991), o que contribuiu para que algumas pessoas pensassem que a explosão no reator foi feita por agentes da CIA, por exemplo.
Uma ideia que contribuiu para o surgimento de teorias da conspiração foi a de que o átomo da energia nuclear era diferente do átomo da bomba atômica. A informação chegava a pessoas mais instruídas. Os camponeses das aldeias próximas à usina não sabiam que se tratava da mesma substância e dos perigos que uma explosão na usina poderia causar.
Para muitos moradores que foram evacuados a informação de que suas casas estavam contaminadas não fazia sentido. Para eles, não ver a radiação significava que ela não existia. Até hoje algumas pessoas moram em aldeias próximas a Pripyat, apesar dos altos níveis de radiação.

“Mesmo envenenada pela radiação, esta é a minha terra. Não somos mais necessários em lugar nenhum. Até os pássaros preferem os seus ninhos.”
Comparação da paisagem de Tchernóbil, antes e depois do acidente.

Em um dos relatos, Svetlana nos apresenta um pai que fugiu da guerra do Afeganistão (1979–1989) e foi para uma região contaminada. Enquanto uns eram retirados de suas casa por conta da radiação, outros temem tanto a guerra que vão de encontra à catástrofe. Para ele nada era pior do que o sofrimento causado pela guerra. Quando questionado sobre o que estava fazendo com seus filhos, levando-os até uma região contaminada, ele disse:  “Eu não estou matando as crianças, estou salvando-as.”

Ser soviético
Assim como em outros livros da autora, o leitor se depara muito com a questão do que é ser soviético, um sentimento um tanto complicado de entender, que perpassa a questão política. Todo o povo soviético era - e ainda é - muito ligado à terra. Se pensarmos antes da União Soviética, aquela região sempre foi predominantemente agrária. 
Por isso, antes de irem defender a URSS, eles acreditavam que defendiam a terra deles. Por outro lado, em muitos relatos os moradores dizem que tinham uma sensação de dever de ajudar a evacuar a região, enterrar objetos, matar animais e fazer tantas outras tarefas delegadas a eles, não importando os riscos que correriam.

“O socialismo soviético. O homem entregava ao Estado a alma, a consciência, o coração, e em troca recebia uma ração.”
“(...) Tchernóbil é também uma grande experiência para o nosso espírito, para a nossa cultura.”

Uma característica do governo soviético, que também aparece em outros livros da autora, é a corrupção enraizada em várias escalas de poder, desde os chefes das aldeias até o mais alto governante.  

“Um presidente de colcoz traz uma caixa de vodca para a unidade dos dosimetristas e pede para que a sua aldeia não seja incluída na lista dos locais a ser evacuados; e outro, também com uma caixa de vodca, pede, ao contrário, que a sua aldeia seja evacuada. Quanto a este, já havia recebido a promessa de um apartamento de três cômodos em Minsk. (...) Enfim, o caos russo de sempre.”

Outra voz solitária
Como o primeiro relato do livro, o último também é de uma mulher que perdeu seu marido devido à catástrofe: Valentina Timofiéevna Apanassiévitch, esposa de um liquidador. É uma outra voz solitária que fala sobre o amor. Valentina ficou ao lado do marido, cuidou dele quando ninguém mais queria se aproximar. Várias vezes ela chamou médicos e enfermeiros, mas eles não passavam da porta, com medo de serem contaminados.

“Falam de Tchernóbil, escrevem sobre Tchernóbil. Mas ninguém sabe o que é. Aqui, agora, tudo é diferente: nascemos e morremos de outro modo. Não mais como os outros. Você me perguntará como morrem depois de Tchernóbil. Um homem que eu amava, que queria de uma maneira que não poderia ser maior se eu mesma o houvesse parido, esse homem se converteu diante dos meus olhos num… num monstro.”

Não é por acaso que Svetlana ganhou o Nobel de Literatura de 2015 pelo conjunto de sua obra. Sem seu trabalho, essas vozes solitárias continuariam silenciadas, tão solitárias quanto já são. Uma parte da História ficaria desconhecida, sem as histórias das testemunhas da catástrofe.

“Destino é a vida de um homem, história é a vida de todos nós. Eu quero narrar a história de forma a não perder de vista o destino de nenhum homem. 
(...)
Algumas vezes, parece que estou escrevendo o futuro...”

A autora
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Svetlana Aleksiévitch nasceu na Ucrânia em 1948. A jornalista e escritora refinou ao longo de sua obra uma escrita única, desenvolvida a partir da observação da realidade e ostentando as melhores qualidades narrativas da tradição da literatura em língua russa. Recebeu em 2015 o Nobel de literatura. Já foram publicados no Brasil, além deste livro, “A Guerra não tem Rosto de Mulher” e “O Fim do Homem Soviético”, todos pela Companhia das Letras.


Lendo o Mundo: As Boas Mulheres da China, Xinran

As Boas Mulheres da China faz parte do Projeto Lendo o Mundo.


Em As Boas Mulheres da China (Companhia das Letras, 2007, R$27,90) a jornalista Xinran reúne relatos de chinesas que ligavam para seu programa de rádio Palavras na brisa noturna para contar suas histórias ou de mulheres que Xinran foi encontrando durante o período. A primeira história, por exemplo, chega a ela por meio de cartas e um diário que são deixados na redação.
A maioria das histórias é de mulheres que viveram durante o período da Revolução Cultural, implantada pelo presidente Mao Tse Tung entre 1966 e 1976. No comando desde 1949  e insatisfeito com seu próprio plano de governo, Mao tinha quatro objetivos, segundo o cientista político Kenneth Lieberthal, do Centro de Estudos Chineses da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos: corrigir o rumo das políticas do Partido Comunista Chinês, substituir seus sucessores por líderes mais afinados com o que pensava, assegurar uma experiência revolucionária à juventude chinesa, e tornar menos elitistas os sistemas educacional, cultural e de saúde. No período, o governo perseguiu intelectuais, professores e antigos membros do Partido; e criou grupos armados, os chamados Guardas Vermelhos. 
Dentro desse contexto é possível imaginar de que forma as mulheres estavam inseridas na sociedade. Há relatos de casamentos arranjados no período da Revolução Cultural; uma garota, Shilin, que é separada de sua família por questões políticas e fica mentalmente doente; garotas abusadas sexualmente por Guardas Vermelhos.

“Desde a sociedade matriarcal no passado remoto, a posição da mulher na China sempre fora a de nível mais baixo. Ela era classificada como objeto, como parte da propriedade, dividida como a comida, as ferramentas e as armas. Mais tarde foi autorizada a ingressar no mundo do homem, mas só podia existir aos pés dele (...). A história da China é muito longa, mas faz muito pouco tempo que as mulheres têm a oportunidade de se tornar elas mesmas e que os homens começaram a conhecê-las”. (p. 60)

Além de histórias marcadas pela Revolução Cultural, o livro mostra como a interação das mulheres com a sociedade e entre elas mesmas foi se modificando com o tempo. Xinran trata da relação das várias gerações de mulheres; jovens que trabalham como acompanhantes de grandes empresários para pagar os estudos; a relação da mulher com a religião; e passa até pela questão da homossexualidade.
Ao mesmo tempo, Xinran discorre sobre sua profissão. Ser jornalista na China quer dizer seguir o que o governo manda. Muitos assuntos, como a homossexualidade, são proibidos. Xinran não poderia demonstrar isso para seus ouvintes, por exemplo. Também era comum os jornalistas participarem de seminários de estudos políticos.

“Os princípios e o significado político das notícias eram repetidos incessantemente, e nenhuma aula estava completa sem alguma condenação de colegas por transgressões diversas: não anunciar os nomes dos dirigentes na ordem hierárquica correta num programa, fazer um comentário que tenha revelado incompreensão da propaganda do Partido, desrespeitar os mais velhos, não informar o Partido sobre um caso amoroso, comportar-se com ‘impropriedade’.” (p.103)

Dessa forma, a história de Xinran também se mistura com as das outras mulheres retratadas. Em um dos últimos capítulos ela discorre sobre sua infância e como foi e é sua relação com seus pais.
O último capítulo é crucial para a publicação do livro. Nele, Xinran conta o que encontrou quando foi visitar uma comunidade localizada na Colina dos Gritos. Os moradores não fazem ideia de como é a vida nas cidades, não há a menor perspectiva de mudar de condição social e ir para outros lugares. Uma das observações mais desconcertantes - tanto para a autora quanto para o leitor - é a de que as mulheres andam com as pernas abertas porque utilizam uma folha muito grossa como absorvente e acabam com as coxas em carne viva. Além disso, as mulheres sofrem do chamado “útero caído” devido a gravidezes sucessivas e vários partos. Elas são “usadas” por seus maridos e, para Xinran, contar a elas sobre como é a vida fora dali seria pior. Não saber que há uma vida melhor as faz sofrer menos. Depois dessa experiência, a autora decide se mudar para a Inglaterra, o que possibilita a publicação do livro.
Ao longo do livro, é possível refletir sobre algumas questões como: O que é ser uma boa mulher? É bom quando dizemos que uma mulher é forte?. Essa segunda questão aparece em um capítulo em que Xinran visita um orfanato criado por mães que perderam seus filhos. A primeira impressão que se tem é de que são mulheres guerreiras, fortes, que aguentam todas as adversidades da vida com a cabeça erguida. No fundo, são pessoas que sofrem com a perda de seus filhos todos os dias. Exalta-se a mulher forte como se suas fraquezas não pudessem existir, como se as dores e os sofrimentos remetessem a uma ideia de fragilidade que se tenta extinguir. 

“Sou uma dessas pessoas que são fortes na frente dos outros, uma fortaleza entre as mulheres, mas quando estou sozinha, choro a noite inteira - pela minha filha, pelo meu marido, pelo meu filho e por mim. Às vezes não consigo respirar, tamanha é a saudade que sinto deles. Há quem diga que o tempo cura tudo. A mim não curou.” (p. 95)

As Boas Mulheres da China é mais que um compilado de relatos, é um retrato das meninas e mulheres chinesas, seus anseios, medos e esperanças - mesmo em meio a tantas lágrimas - para o futuro.

A autora
Xinran nasceu em Pequim, China, em 1958. Trabalhou como jornalista e radialista. Hoje é escritora, colunista do jornal The Guardian e professora na School of Oriental and African Studies da Universidade de Londres. 
Além de As Boas Mulheres da China, tem cinco livros publicados no Brasil, todos pela Companhia das Letras: Enterro Celestial, O que os Chineses não Comem, As Filhas Sem Nome, Mensagem de uma Mãe Chinesa Desconhecida, Testemunhas da China.

Outros autores chineses para conhecer
Yu Hua: Viver; Irmãos; Crônica de um Vendedor de Sangue
Jung Chan: Cisnes Selvagens
Dai Sijie: Balzac e a costureirinha chinesa
Gao Xinjian: A Montanha da Alma
Ha Jin: A Espera; O ensandecido; Refugo de Guerra
Chan Koonchung: Os anos de fartura
Ma Jian: Pequim em Coma; A cozinha da revolução
Su Tong: A mulher que chora
Yan Lianke: A serviço do povo
Ting Xing Ye: Meu nome é número 4

Cegos que, vendo, não veem

Ensaio Sobre a Cegueira faz parte do projeto Lendo o Mundo.

Num semáforo, o primeiro carro da fila espera que o sinal mude para verde. Quando a mudança acontece, o motorista cega. Uma cegueira branca. É tomado, então, pelo desespero. O homem grita e é acudido por outro homem que acaba levando-o para casa.
O primeiro cego, como passa a ser chamado, vai ao consultório de um oftalmologista que fica, no mínimo, intrigado com a cegueira súbita do paciente. Em pouco tempo, cegaria também o médico e o homem que levou o primeiro cego para casa. Aos poucos, a cegueira branca vai se espalhando e o governo se vê em meio a um impasse: O que fazer com os cegos? A cegueira é transmitida por um vírus? Então, os primeiros cegos são colocados em quarentena num prédio onde funcionava um manicômio.

Cegos. O aprendiz pensou: "Estamos cegos", e sentou-se a escrever o Ensaio sobre a Cegueira para recordar a quem o viesse a ler que usamos perversamente a razão quando humilhamos a vida, que a dignidade do ser humano é todos os dias insultada pelos poderosos do nosso mundo, que a mentira universal tomou o lugar das verdades plurais, que o homem deixou de respeitar-se a si mesmo quando perdeu o respeito que devia ao seu semelhante.
(De como a personagem foi mestre e o autor seu aprendiz, dezembro de 1998. Discurso de Saramago no Prêmio Nobel.)

Saramago, ao não nomear os personagens, reforça a ideia da perda da identidade dessas pessoas. Não que isso busque a igualdade, ao contrário, não lhes convém guardar vários nomes: se chamam, por exemplo, por "a rapariga dos óculos escuros", "o médico", "a mulher do médico".
Mais à frente na história, os personagens começam a perder aspectos que nos caracterizam como seres humanos. Vem a fome, a falta de higiene, lutas entre os cegos que estão nas quarentenas, assassinatos.
Em meio ao caos, a mulher do médico seria a personagem principal. Ela decide acompanhar o marido quando este está sendo levado para a quarentena. A mulher não cegou ainda, mas acredita que cegará. Se isso acontece ou não, eu não vou dizer.
As outras mulheres da história também são muito fortes e interessantes. Cenas marcantes acontecem dentro e fora do manicômio onde os cegos estão isolados e constroem uma relação de sororidade e irmandade entre elas.
Está morta, disse a mulher do médico, e a sua voz não tinha nenhuma expressão, se era possível uma voz assim, tão morta como a palavra que dissera, ter saído de uma boca viva. Levantou em braços o corpo subitamente desconjuntado, as pernas ensanguentadas, o ventre espancado, os pobres seios descobertos, marcados com fúria, uma mordedura num ombro, Este é o retrato do meu corpo, pensou, o retrato do corpo de quantas aqui vamos, entre esses insultos e as nossas dores não há mais do que uma diferença, nós, por enquanto, ainda estamos vivas.

Este foi o meu primeiro contato com a escrita de José Saramago. Já tinha ouvido falar que ele não seguia as regras de pontuação ou de maiúsculas e minúsculas e isso me assustava um pouco.
Besteira. A escrita do autor é única, consegue cativar já nas primeiras páginas. Na citação acima, se percebe o não uso das regras formais e a linguagem coloquial e a poesia, que o autor consegue combinar. Outro ponto muito bom é poder ler o português de outros países que falam e escrevem na língua. Experiência parecida eu tive ao ler Mia Couto, autor moçambicano.
O livro foi adaptado para o cinema pelo diretor brasileiro Fernando Meirelles e tem Julianne Moore, Mark Ruffalo, Alice Braga e Gael García Bernal no elenco.
No site Conexão Lusófona está disponível o livreto "A Arquitetura de um Romance" que revela a construção do livro contada dia a dia pelo autor nos seus diários e intervenções públicas. Uma curiosidade: a capa do livreto é de Chico Buarque.

O autor
Filho e neto de camponeses, José Saramago nasceu na aldeia de Azinhaga, província do Ribatejo, no dia 16 de Novembro de 1922. Sua família foi para Lisboa quando ele ainda era criança, assim passou a maior parte de sua vida na capital.
O seu primeiro emprego foi como serralheiro mecânico, tendo exercido depois diversas profissões: desenhador, funcionário da saúde e da previdência social, tradutor, editor e jornalista. Publicou o seu primeiro livro, um romance,  Terra do Pecado, em 1947.
Pertenceu à primeira Direção da Associação Portuguesa de Escritores e foi, de 1985 a 1994, presidente da Assembleia Geral da Sociedade Portuguesa de Autores. A partir de 1976 passou a viver exclusivamente do seu trabalho literário, primeiro como tradutor, depois como autor. Em 1998, ganhou o Prêmio Nobel de Literatura. José Saramago faleceu no dia 18 de Junho de 2010.

Outros livros e autores portugueses:
Eça de Queiroz
Fernando Pessoa
Florbela Espanca
Vento, areia e amoras bravas e A Sibila, de Agustina Bessa-Luís
Uma Menina Está Perdida no Seu Século à Procura do Pai, de Gonçalo M. Tavares

Equador e No teu deserto, de Miguel Sousa Tavares
A Desumanização, O Filho de Mil Homens, A Máquina de Fazer Espanhóis, O Paraíso são os Outros, de Valter Hugo Mãe (é angolano, mas sempre viveu em Portugal)
A Definição do Amor, de Jorge Reis-Sá
Fazes-me falta, de Inês Pedrosa
Morreste-me, de José Luís Peixoto
 

O feminismo negro em A Cor Púrpura


A Cor Púrpura faz parte do Projeto Lendo o Mundo.

Sou mulher, mas não sou negra. Porém, é impossível ler A Cor Púrpura e não se identificar com a história das mulheres representadas. Para mulheres negras a identificação provavelmente acontece mais facilmente.
Claro que direitos foram conquistados por mulheres e negros desde o início do século XX - época em que se passa a história -, mas ainda sofremos com a desigualdade de gênero e de raça, duas principais temáticas tratadas.
A Cor Púrpura é narrado em primeira pessoa por Celie, que escreve cartas para Deus. As primeiras cartas já permitem que o leitor saiba que a personagem é abusada sexualmente por seu pai e que ela teve dois filhos dele, que acredita estarem mortos.
Celie acaba sendo "doada" (dada) a Sinhô, seu marido, homem que a trata mais como escrava do que como esposa. A brutalidade e violência com que Sinhô - tratamento que já mostra uma situação de submissão - trata Celie estão ligadas a forte paixão que ele nutre por sua ex-amante Doci Avery, conhecida cantora de blues que o deixa para viver do canto. 
Celie também acredita ter perdido sua irmã, com quem não tem mais contato desde que saiu de casa. Está sozinha, morando com um homem que não a respeita.

"Mas eu num sei como brigar. Tudo queu sei fazer é cuntinuar viva."

Após a Emancipation Proclamation, promulgada em 1° de janeiro de 1863 pelo presidente Abraham Lincoln nos Estados Unidos, "os negros obtiveram direitos iguais aos brancos em 1868. Dois anos mais tarde, [...] garantiu-lhes a igualdade de direito eleitoral. Estados como Carolina do Sul, Mississippi e Louisiana, porém, deram um jeito de burlar os direitos dos escravos libertados, mantendo restrições legais, os chamados black codes". Os black codes eram práticas que restringiam as liberdades e os direitos civis dos afro-americanos, que seriam conquistados - no papel - somente em 1964, com a Lei dos Direitos Civis. Ou seja, continuaram vivendo à margem da sociedade.
A situação no Brasil não foi muito diferente. Os ex-escravos eram discriminados pela cor da pele (e seus descendentes ainda são) e acabaram somando-se à população pobre "e formaram os indesejados dos novos tempos, os deserdados da República".
“Nunca houve anos no Brasil em que os pretos (...) fossem mais postos à margem”.  Lima Barreto

As mulheres só obtiveram o direito de votar em 1920, nos EUA, e os negros somente em 1965 após a instituição da lei Voting Rights Act que proibia o uso de parâmetros relacionados à cor da pele e grau de instrução. 

"Harpo, ela [Sophia] diz. (...) Harpo, num deixa a Celie carregar toda a água sozinha. Você tá grande agora. Tá na hora de ajudar um pouco.
As mulher é que trabalham, ele diz.
Quê?, ela diz.
As mulher é que trabalham. Eu sou home.
Você é um negro safado, ela diz. Pega aquele balde e traz ele cheio.
(...) Sinhô chama a sua irmã. Ela fica na varanda falando um pouco, depois ela volta, tremendo.
Tenho de ir, Celie, ela diz.
Ela tá cum tanta raiva que as lágrima iscorrem enquanto ela arruma as coisa dela.
Você tem que brigar cum eles, Celie, ela diz. Eu num posso fazer isso pur você. É você mesma que tem que brigar pur você."

O termo sororidade, parte do feminismo contemporâneo, é pulsante nas relações entre essas personagens, o que faz com que elas se ajudem mesmo se não há grande afinidade entre elas. 

"Olha só pra você. É negra, é pobre, é feia, é mulher. Você não é nada!"

Assim, Alice Walker faz um retrato de uma época em que ser negro era difícil, mas ser mulher negra era pior ainda. Se os negros estavam à margem da sociedade, as mulheres negras só serviam para cuidar da casa (a sua ou da dos outros) e sem reclamar. Celie, Doci, Sophia, Nettie, Mary Agnes e todas as mulheres retratadas no livro são muito fortes e profundas. São críveis porque elas existiram e ainda existem em todo o mundo. 

O romance de Alice Walker venceu o Prêmio Pulitzer de Ficção e o National Book Award, ambos em 1983.


A autora
Alice Walker nasceu em 1944, em Eatonton, na Geórgia. Trabalhou como assistente social, professora e participou do Civil Rights Movement, em 1960 no Mississippi. Além de A Cor Púrpura, também escreveu O templo dos meus familiares, Vivendo pela Palavra, Rompendo O Silêncio e De amor e desespero, obra composta por vários contos sobre mulheres negras do sul dos Estados Unidos.
Três anos depois do lançamento de A Cor Púrpura, Steven Spielberg levou a história aos cinemas, com Whoopi Goldberg, Oprah Winfrey e Danny Glover no elenco. O longa recebeu 11 indicações ao Oscar.
A autora incorporou personagens do romance e suas relações em outros dois livros: The Temple of My Familiar (1989) e Possessing the Secret of Joy (1992), que receberam boas críticas e foram bastante discutidos por tratarem de assuntos como a prática de mutilação feminina.








A Paris viva em O Corcunda de Notre Dame


O Corcunda de Notre Dame, de Victor Hugo, faz parte do Projeto Lendo o Mundo.

Escrito em 1830, o Corcunda de Notre Dame se passa na Paris medieval no ano de 1482. A trama começa com a comemoração do Dia de Reis (6 de janeiro) e da Festa dos Bufos - bufo é mais conhecido como bobo da corte, aquele que entretém o rei e a rainha.

Aos poucos vamos nos habituando ao cenário e aos personagens que Victor Hugo nos apresenta. Conhecemos Gringoire, filósofo e escritor da peça que está sendo apresentada naquele dia e, mais à frente, Quasímodo, o sineiro da Catedral de Notre Dame. O sineiro foi deixado em frente à Catedral quando tinha uns quatro anos e foi criado pelo arquidiácono Claude Frollo desde então.

Nesse mesmo dia em que começa a história, o leitor também conhece a cigana Esmeralda - sempre em companhia de sua cabra Djali -, que acaba despertando sentimentos em Quasímodo, no arquidiácono e no capitão Phoebus de Châteaupers (esse último encontro acontecerá mais tarde).

"- Sabe o que é a amizade? - perguntou ainda.
- Sei -  respondeu a egípcia. - É ser irmão e irmã, duas almas que se tocam sem se confundir, os dois dedos da mão.
- E o amor? - continuou ele.
- Ah! O amor! - sua voz tremeu e o olho resplendeu. - É ser dois, sendo um só. Um homem e uma mulher que se fundem como anjo. É o céu." (p.136)
O único personagem masculino que não se atrai por Esmeralda é Gringoire, que acaba se afeiçoando mais à cabra do que à moça. Aliás, ouso dizer que, de todos os homens da história, Quasímodo é o mais humano - ironicamente e propositalmente, já que ele é sempre retratado como animal por causa de sua feiura. Frollo e Châteaupers "amam" a cigana, mas não fazem absolutamente nada para que ela não sofra as consequências de atos e tramoias que os dois realizam. Frollo, principalmente, é muito intenso em tudo o que faz, não pensando em tudo o que poderia acontecer àqueles que ama. Uma ótima análise sobre essa relação entre os personagens é o artigo "A paixão do clérigo Frollo como fator determinante para a violência: um estudo comparado entre o livro O corcunda de Notre-Dame e o filme de William Dieterle", de Antônia Pereira de Souza.

Charles Laughton (Quasímodo) e Maureen O’Hara (Esmeralda) em adaptação de 1939.

Outro ponto muito importante da obra de Victor Hugo é que a própria Catedral de Notre Dame é um grande personagem da história, se não a protagonista. Toda a trama se passa dentro ou próximo à Catedral. O autor discorre sobre arquitetura, sobre as mudanças que vêm ocorrendo ao longo do tempo no edifício e da importância da Catedral para a cidade de Paris (vou falar sobre a Paris medieval logo abaixo). Uma dica para você que vai ler - ou que já leu - é que com o Street View do Google Maps é possível entrar na Catedral e também subir até a torre e ter uma vista maravilhosa de Paris.

Conversa com o leitor
Duas das características que mais gosto, seja nos livros de Victor Hugo ou em qualquer outro autor, é 1) o fato de ele conversar com o leitor em alguns momentos e 2) as voltas que a história dá e a forma como os personagens são conectados.

Bom, o diálogo com o leitor dispensa explicações. Para mim, esse recurso aproxima quem lê da história, parece que estamos realmente vivendo aquela situação:

"Como eles, deixemos Jehan dormindo aos cuidados das benfazejas estrelas e continuemos também a segui-los, se o leitor assim permitir" (p. 363)
Já as voltas as quais me refiro, aparecem quando o autor quer apresentar um novo personagem, um novo lugar, e precisa fazer uma ligação entre o que já conhecemos e o que está sendo apresentado. Por exemplo, Victor Hugo não conta a história de Quasímodo de forma direta: "Quasímodo nasceu... chegou a Paris por causa disso etc". Isso não quer dizer que o autor enrole ou encha a história com detalhes desnecessários. Vamos saber a história do Corcunda da Catedral de Notre Dame através de uma conversa entre três mulheres que, no início, parecem não fazer parte da história e nem ter importância para a trama. Aliás, tudo o que ele descreve tem um porquê e, mesmo que as descrições sejam um pouco cansativas, vale a pena. 

A Paris medieval
Na introdução, o autor explica que alguns capítulos que tratam sobre Paris e sua arquitetura foram inseridos apenas na terceira edição. Há a possibilidade de pular esses capítulos sem que haja interferência grande na trama, porém por que pular Victor Hugo, não é?

Há um capítulo em que Victor Hugo nos apresenta Paris num sobrevoo. A cidade é um personagem vivo e ativo do livro, assim como a civilização e as transformações que faz ao longo do tempo. Para quem nunca esteve em Paris, o livro é como uma passagem que compramos no aeroporto. O leitor consegue se sentir na cidade e captar a atmosfera do lugar.

O autor ainda explica que Paris é dividida em três áreas: a Cité (ilha onde está Notre Dame), a Universidade (onde está Sorbonne) e a Cidade (onde fica o Louvre). Pertenciam, respectivamente, ao bispo, ao reitor e ao preboste (um oficial real).

Mapa de Paris medieval: Cidade, Cité e Universidade. (Foto: Conexão Paris)

A Cidade e a Universidade tinham seis portas cada uma que eram fechadas durante a noite. A Cité tinha cinco pontes que ligavam-na às margens. Essas pontes tinham casas sobre elas, também retratadas no livro.

Com informações do Conexão Paris.

Edições e adaptações
A editora Zahar tem duas ótimas edições da obra, uma normal e uma de bolso, ambas ilustradas, mas somente a edição normal tem comentários.

Já tinha tentado ler pela edição da Martin Claret, aquela de bolso, mas não passei do primeiro capítulo. Talvez pela tradução, talvez pela diagramação. Vale a pena dar uma olhada nas edições disponíveis antes de sair comprando.

O romance teve três adaptações para o cinema: em 1939, com direção de William Dieterle e Maureen O'Hara como Esmeralda; em 1996, adaptado pela Disney; e em 1997, com direção de Peter Medak e Salma Hayek (Frida) e Mandy Patinkin (Homeland) no elenco.

Recomendo, também, a ótima resenha da Vevs Valadares sobre a obra.

Outros títulos franceses
A Espuma dos Dias, de Boris Vian (Confira esse livro na lista dos melhores de 2015, indicados pela equipe do Literatortura).
Os Miseráveis, de Victor Hugo
O Bosque das Ilusões Perdidas, de Alain-Fournier
Coração Apertado, Três Mulheres Fortes, de Marie NDiaye
Porcaria, O Nascimento dos Fantasmas, de Marie Darrieussecq
Amanhã, numa boa, de Faïza Guene
Zazie no metrô, de Raymond Queneau
A Vida Modo de Usar, As Coisas, de Georges Perec
Peixe Dourado, de Jean-Marie Gustave Le Clezio
14, Correr, Vou Embora, de Jean Echenoz
A Arte Francesa da Guerra, de Alexis Jenni
O Sermão sobre a Queda de Roma, de Jérôme Ferrari
Submissão, de Michel Houellebecq

A Morte do Pai, de Karl Ove Knausgård


A Morte do Pai, de Karl Ove Knausgård, faz parte do Projeto Lendo o Mundo.

O autor de A Morte do Pai é o protagonista da série Minha Luta, que já tem outros dois títulos lançados no Brasil: Um Outro Amor e A Ilha da Infância, ambos pela Companhia das Letras. (Por sinal, as capas dessas edições são muito bonitas).

"Com A morte do pai, Knausgård inaugura um projeto monumental e ambicioso, que logo se tornou best-seller na Noruega e fenômeno literário internacional. São seis volumes híbridos entre a ficção e a memória, em que o autor explora, com pleno domínio da atividade narrativa, as possibilidades da ficção contemporânea", da editora.
Karl Ove inicia e termina seu livro falando sobre a morte. No início, o autor trata do assunto no sentido prático: cadáveres escondidos dos pacientes em hospitais, transportados por saídas e entradas do subsolo, cobertos com panos brancos. Os mortos afrontam nossas vidas, por mais queridos que os falecidos tenham sido para nós. No final o sentido ainda é prático - decisões sobre velório, enterro, limpeza da casa - mas mais pessoal, já que se trata da morte do pai do autor. 

Entre essas duas abordagens sobre a morte estão passagens da infância, adolescência e vida adulta de Knausgård. "Minha família tentou proibir o livro. A questão ética foi levantada - mas não porque escrevi alguma mentira sobre eles, mas porque escrevi tão abertamente sobre meu pai (...) Não revelo nada sobre ninguém, só sobre meu pai e minha avó, que já estão mortos", em entrevista publicada pelo Estadão.

"Para o coração a vida é simples: ele bate enquanto puder". (p.7)

Demorei um pouco para ser conquistada pela história e até pela escrita de Karl Ove (às vezes descrições e divagações do autor acabam sendo um pouco extensas), mas acabei lendo cem páginas em um dia quando estava quase terminando. Cem páginas eu leio em dois, três dias. A curiosidade de saber como Karl e seu irmão Yngve lidariam com a morte de seu pai e de como aquele acontecimento afetaria suas vidas foi grande.

Muito além da morte, o livro trata da busca de Karl pela própria identidade, como profissional, como pai, como homem. Uma história que poderia ser minha ou sua, com a simplicidade do cotidiano, mas com a densidade que toda vida traz consigo.


"Escrever é retirar da sombra a essência do que sabemos. É disso que a escrita se ocupa. Não do que acontece aí, não das ações que se praticam aí, mas do em si. Aí, é esse o lugar e o propósito da escrita". (p.178)

O autor *
Kanusgård é considerado o mais importante escritor norueguês de sua geração. É autor de Ute av Verden (Fora do mundo), que venceu o Prêmio da Crítica na Noruega em 1998, En Tid for Alt (Tudo tem seu tempo), eleito um dos 25 melhores romances noruegueses de todos os tempos. Kanusgård vive hoje em Malmö, na Suécia. 

O país

Quando o pai de Karl Ove morre, ele não está na Noruega, mas vai até lá com seu irmão para resolver detalhes sobre o velório, enterro e sobre a casa onde o falecido e sua avó moravam. Porém, toda a parte da infância e adolescência se passa na Noruega.

O país nórdico tem como capital a cidade de Oslo, onde nasceu Karl Ove, e seu governo é uma monarquia constitucional com Haroldo V como rei e Erna Solberg como primeira-ministra. Saiba mais.


Outros títulos noruegueses 
Cavalos Roubados, de Per Petterson
Fome, Os Frutos da Terra, de Knut Hamsun
O Meio-Irmão, de Lars Saabye Christensen
Antes de Você Dormir, de Linn Ullmann 
Primavera, de Sigrid Undset (Nobel 1928) 
O Dia do Coringa, A Garota das Laranjas, O Mundo de Sofia, de Jostein Gaarder

* Com informações da editora.

Lendo o Mundo: Terra Sonâmbula, Mia Couto

Ilustração: Lui Zuccherelli de Paula

Terra Sonâmbula faz parte do Projeto Lendo o Mundo.

O romance do moçambicano Mia Couto conta a história do garoto Muidinga e do velho Tuahir, que fogem da guerra civil que assolou Moçambique de 1976 a 1992. Durante dez anos, de 1965 a 1975, a batalha foi contra o domínio português. Após a independência, disputas internas entre os grupos Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO) e Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) fizeram milhares de vítimas no país. O romance foi publicado em 1992, quando foi assinado o Acordo Geral de Paz entre os dois grupos.

Nesse cenário, um ônibus incendiado serve de abrigo para os dois personagens viajantes. Um cadáver que está fora do veículo chama a atenção de Muidinga: ao lado do corpo há uma mala com escritos de Kindzu, o morto.

Assim, a narrativa segue a viagem de Muidinga e Tuahir e, enquanto os dois leem o diário, acompanhamos Kindzu em sua busca aos naparamas - guerreiros tradicionais abençoados por feiticeiros que são a única esperança contra os senhores da guerra.

“Ambos queríamos partir. Ela queria sair para um novo mundo, eu queria desembarcar numa outra vida.”

Elementos fantásticos são utilizados em alguns momentos da história sem que isso atrapalhe o leitor ou o entendimento da obra. Me lembrou Gabriel García Márquez, Érico Veríssimo. Por exemplo, Muidinga, em determinado momento, percebe que a estrada onde estão se movimenta sem que eles saiam do lugar. Ao mesmo tempo, a história caminha. O realismo mágico e a poesia aparecem, principalmente, para representar a esperança e o sonho dos personagens de viver a tempo de ver a situação do país melhorar.

Terra Sonâmbula está entre os doze melhores livros africanos do século XX escolhidos pelo júri especial da Feira do Livro de Zimbabwe e venceu o Prêmio Nacional de Ficção da Associação dos Escritores Moçambicanos de 1995.

O autor

Mia Couto nasceu em 1955, na Beira, na província de Sofala, Moçambique. É biólogo, jornalista e autor de mais de trinta livros, entre prosa e poesia. Recebeu uma série de prêmios literários, entre eles o Prêmio Camões de 2013, o mais prestigioso da língua portuguesa, e o Neustadt Prize de 2014. É membro correspondente da Academia Brasileira de Letras. Seu romance mais recente, Mulheres de Cinzas, é o primeiro da trilogia Areias do Imperador e foi lançado recentemente pela Companhia das Letras.

O país

Moçambique está localizado no sudeste africano. Sua capital é Maputo. A língua oficial do país é o português, herança da colonização portuguesa. A literatura moçambicana obteve um maior desenvolvimento no período colonial, lidando com temas nacionalistas. Os escritores mais importantes desta fase foram Rui de Noronha e Noémia de Sousa.
Outro autor conhecido por sua obra literária é José Craveirinha que iniciou seu trabalho na década de 1940, abordando temas da realidade social dos moçambicanos em seus poemas. Ele é considerado hoje o mais importante poeta moçambicano.

Outros títulos moçambicanos
Ninguém Matou Suhura, Lilia Momplé
Sangue negro, Noémia de Sousa
Ualalapi, Ungulani Ba Ka Khosa
Niketche: uma história de poligamia, Paulina Chiziane
Nós Matamos o Cão-Tinhoso, Luís Bernardo Honwana

Lendo o Mundo: A Nigéria de Chimamanda

Os livros Americanah e Sejamos Todos Feministas fazem parte do Projeto Lendo o Mundo.

A escritora Chimamanda Ngozi Adichie nasceu em Enugu, na Nigéria, em 1977. Entre seus romances estão Meio Sol Amarelo e Hibisco Roxo. A autora estourou com o livro Americanah, publicado no Brasil em 2014 pela Companhia das Letras (520 páginas).

Foi vencedor do National Book Critics Circle Award e um dos 10 melhores livros do ano pela NYT Book Review.
O livro conta a história de Ifemelu, uma nigeriana que viaja até os Estados Unidos para estudar, em busca de alternativas para as universidades sucateadas de seu país, pelo governo militar. No início da história, ficamos sabendo que Ifemelu é uma blogueira muito conhecida nos EUA e que, agora, tem planos de voltar para a Nigéria. 

"Você fala inglês tão bem. Tem muita AIDS no seu país? É tão triste que as pessoas vivam com menos de um dólar por dia na África. E eles próprios caçoavam da África, trocando histórias de absurdos, de tolice, e sentiam-se seguros para caçoar, porque era algo que nascia de uma saudade, de um desejo desesperado de ver aquele lugar de novo."

Chimamanda mescla a vida atual de Ifemelu com momentos vividos em Lagos, na década de 1990. Ao se mudar para os EUA, a jovem deixa seu namorado, Obinze, para trás. No começo, o romance dá certo e se desenvolve até que um acontecimento faz com que ela corte as relações com ele. 
Ao mesmo tempo em que discute questões políticas, a autora pontua muito bem os problemas raciais e sociais dos Estados Unidos. Por questões sociais entende-se a vida de uma imigrante, mulher e negra.

"As minorias raciais americanas - negros, hispânicos, asiáticos e judeus - todas sofrem merda na mão dos brancos, merdas diferentes, mas merda mesmo assim. Cada uma secretamente acredita que sua merda é a pior."

A escritora fala sobre assédio, traições (sua tia Uju tem um relacionamento com um general do alto escalão do governo militar), o papel da mulher e como ela é vista na sociedade africana e americana.
Assim, podemos falar de outra obra da autora, o discurso Sejamos Todos Feministas apresentado no TEDx e publicado como livro e ebook também pela Companhia. A palestra tem mais de um milhão de visualizações.
Em seu discurso, a autora discorre sobre como as mulheres nigerianas são invisíveis. Ela conta de um garçom que não olha em seus olhos e que mulheres não devem chegar a festas, por exemplo, desacompanhadas. É um livro muito breve, mas que nos faz refletir sobre como podemos reverter essa situação e como o movimento feminista deve se impor e ter cada vez mais força.
No Literatortura, falei sobre três ebooks curtos - mas poderosos - para conhecer o feminismo.

As pipas no Afeganistão

O Caçador de Pipas faz parte do projeto Lendo o Mundo.

O Caçador de Pipas, de Khaled Hosseini, foi lançado em 2003 pela Editora Nova Fronteira. Nele conhecemos Amir e Hassan, dois garotos que cresceram juntos apesar da diferença socioeconômica entre suas famílias.
Enquanto Amir é rico e filho de uma importante figura do Afeganistão, Hassan não sabe ler nem escrever, mas é conhecido por sua extrema bondade e coragem. São personagens antagônicos que se completam, como você e seu melhor amigo: há semelhanças, mas muitas diferenças que fazem a amizade ficar mais interessante.
Tradição no país, um campeonato de pipas, em 1975, marca o início de uma nova fase no relacionamento dos dois meninos. Amir e Hassan formavam uma dupla no campeonato. O primeiro empinava a pipa, enquanto o segundo ia soltando a linha. Assim, quando Amir consegue derrubar a última pipa no ar, Hassan sai correndo para buscá-la. A última pipa derrotada era o maior prêmio que qualquer garoto de Cabul poderia ter.

"Por você, eu faria isso mil vezes".

Acontece que, no caminho, Hassan é interceptado por um grupo de garotos que acabam abusando dele sexualmente. Nessa altura da história, Amir já tinha saído em busca do amigo e acaba vendo toda a cena, sem interferir. A culpa e o remorso fazem Amir tomar decisões equivocadas e ferir tanto Hassan quanto seu pai. 
Em 1979, a União Soviética invade o Afeganistão e Amir e seu pai, Baba, fogem para os Estados Unidos. A invasão durou dez anos e aconteceu no contexto da Guerra Fria. Entre 850.000 e 1.500.000 afegãos morreram no conflito. De cinco a dez milhões se refugiaram no Paquistão ou no Irão e outros dois milhões ficaram desalojados no país.
"Depois que os vários grupos de resistência contra a ocupação soviética tomaram Cabul, em 1992, houve um período marcado por lutas internas e guerras civis. Em 1994, o Talibã surgiu como uma alternativa caracterizada pela predominância pachtun e pelo rigor religioso extremo, criando na população expectativas de que acabaria com o constante estado de guerra interno e com os abusos dos senhores da guerra. Controlando noventa por cento do Afeganistão por cinco anos, o regime talibã, que se chamava o "Emirado Islâmico do Afeganistão", ganhou o reconhecimento diplomático de apenas três países: Paquistão, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. Tinha, como objetivo declarado, impor a lei islâmica e alcançar um estado de paz."

"Existe apenas um pecado, um só. E esse pecado é roubar. Qualquer outro é simplesmente a variação do roubo. Quando você mata um homem, está roubando uma vida. Está roubando da esposa, o direito de ter um marido, roubando dos filhos um pai. Quando mente, está roubando de alguém o direito de saber a verdade. Quando trapaceia, está roubando o direito à justiça [...]".

É nesse contexto que Amir volta ao país, depois de tantos anos para se redimir de seus erros do passado.
Segundo o autor, O Caçador de Pipas não tinha o intuito de ser dramático, mas era inevitável usar como pano de fundo a guerra e a política. "Era uma janela para a vida no país. Não sentei para escrever com essa intenção, mas o livro cumpriu essa missão mesmo assim. O lado humano do Afeganistão não aparece no noticiário, só há guerra e violência", afirmou em entrevista à Época.
Khaled também se mudou para os Estados Unidos quando era adolescente e viveu como exilado por muitos anos. A relação dele com seu país natal é a mesma de Amir, o que contribui muito para a história do livro.
Demorei muitos anos para ler O Caçador de Pipas. Provavelmente, a história não será novidade para ninguém (até porque adaptaram-no para o cinema em 2007), mas se você não leu ainda, corre que vale muito a pena.


* A leitura desse livro faz parte do Projeto Lendo o Mundo e também do Rory Gilmore Book Project.

Os documentos de Zambra



Meus Documentos (Cosac Naify, 2015) é uma coletânea de contos do chileno Alejandro Zambra, em que traça um panorama entre a história de seu país e o desenvolvimento humano de seus personagens. Segundo o autor, em entrevista, eram 25 contos no início. "Mas fui ficando com esses 11; queria que fossem como 11 filhos, todos ligeiramente parecidos e diferentes ao mesmo tempo", diz.

Em várias histórias, Zambra cita o ditador Pinochet, que liderou o golpe militar em 1973 no Chile e derrubou o governo democrático de Salvador Allende; e o plebiscito que teve forte campanha pelo No (Não). Sobre isso vale ver o filme de mesmo nome com Gael García Bernal.

Camilo, por exemplo, é um conto sobre pais e filhos; exílio; amadurecimento e futebol. Este último, usado para criar proximidade entre os personagens. Aliás, o futebol aparece em outros contos, como em Obrigada, em que dois personagens são assaltados e os bandidos começam a perguntar para qual time torciam e de quais jogadores gostam mais.

Lembro da câimbra na mão direita depois das aulas de história, porque Godoy ditava durante as duas horas inteiras. Ensinava-nos a democracia ateniense ditando como se dita na ditadura.

"Eu não acho que a literatura e o futebol sejam tão distantes. Como o tempo descobri que os escritores queriam ser jogadores de futebol ou roqueiros, e que se convertem em escritores porque não eram tão bons quanto o Zico ou como Caetano Veloso. No meu caso, quis ser jogadores, depois músico, assim, o futebol é a minha vocação original", afirma ao jornalista Jonatan Silva.

Há histórias melancólicas, histórias engraçadas, histórias pesadas  e histórias que o próprio Zambra se confunde com os personagens. E como dizer que ele não viveu nada daquilo? Um autor coloca em sua obra toda sua vivência e, pelo título do livro, podemos dizer que muito de Zambra está em Meus Documentos. Em outra entrevista, dessa vez para o Contracapa, ele afirma: "Acredito que todos os romances são, de algum modo, autobiográficos, mas às vezes são o contrário de uma autobiografia. Os romances apostam na multiplicidade". Para a Cosac, o autor disse "encontrei vários escritores que sou ou que penso ser" com Meus Documentos. 


Perguntei a ele qual era a diferença entre um poema e um conto. Estávamos na piscina, deitados ao sol, em plena fotossíntese, como ele dizia. Olhou para mim com ares pedagógicos e me disse que um poema era o exato oposto de um conto - os contos são entediantes, mas a poesia é loucura, a poesia é selvagem, a poesia é um fluxo de sentimentos extremos (...).

Zambra é a pura poesia do cotidiano. Sem floreios, o autor nos apresenta histórias e personagens que podemos encontrar em qualquer lugar. São homens, mulheres e até animais que crescem e amadurecem durante a leitura. Livro crível e palpável que deixa o leitor curioso por mais.

*

Alejandro Zambra nasceu em Santiago, em 1975. Bonsai foi seu romance de estreia e, com ele, ganhou o Prêmio da Crítica e o Prêmio do Conselho Nacional do Livro, no Chile. Também é autor de A Vida Privada das Árvores, Formas de Voltar Para Casa e Facsímil (todos lançados pela Cosac Naify). Foi eleito pela revista britânica Granta um dos melhores jovens escritores hispanoamericanos. 


Lendo o Mundo: Anna Kariênina

Anna Kariênina faz parte do projeto Lendo o Mundo.

"Qualquer pessoa é capaz de se conservar horas sentada de pernas encolhidas, sem mudar de posição, desde que esteja certa de que nada a impedirá de o fazer. Mas, sabendo que é uma imposição, terá cãibras e as pernas, trêmulas, acabarão por se estender."
Anna Kariênina* foi uma imposição, de mim para eu mesma. Me deu cãibras, principalmente nos olhos que tentavam ficar abertos.

O romance de Tolstói funciona como uma novela: vários núcleos que se entrelaçam. Todos os personagens têm alguma ligação entre si. Seja familiar ou de amizade. Stephan Oblonski (ou Oblonsky), irmão de Anna, está passando por uma crise em seu casamento depois que sua esposa, Darya, descobriu que ele a traiu. Para acalmar os ânimos e convencer Darya de que era preciso salvar seu casamento, Anna faz uma visita à família. 

Ironicamente, Kariênina conhece, no trem a caminho da casa de seu irmão, o Conde Vronski, por quem se apaixona quase que imediatamente. Este, no entanto, está interessado na jovem Kitty, irmã de Darya.
Percebe como o conflito de todos os personagens se conectam e se misturam? Amor, traição e hipocrisia são apenas algumas temáticas do romance. 
— Surpreende-me que os pais consintam. É um casamento de amor, segundo ouço dizer.
— De amor? — exclamou a embaixatriz — Onde foi colher essas ideias antediluvianas? Quem fala em amor nos nossos dias? 
— Que quer, minha senhora? — disse Vronski — Essa velha moda ridícula ainda não acabou de todo.
— Tanto pior para os que ainda a usam! Em matéria de casamentos, só conheço uma espécie feliz o casamento de conveniência.
— Pode ser, mas, em troca, a felicidade desses casamentos muitas vezes desfaz-se em pó justamente porque surge o amor, no qual não acreditavam — replicou Vronski.
Não podemos esquecer que o romance se passa no século XIX e Anna não é bem-vista quando decide arriscar seu casamento e a guarda de seu filho para ficar com Vronski. Para complicar, seu marido é oficial do governo, o que aumenta a pressão social na decisão que Anna deve tomar.

Este, porém, não é o conflito principal do livro. Todos os núcleos têm peso, praticamente, equivalente. Lembram-se de Kitty? Com Vronski interessado em Anna, uma mulher mais madura, Kitty se encontra perdida. Ela protagoniza outro conflito baseado em questões amorosas com Kostya Levin (ou Lievin).

Um dos pontos que pode confundir o leitor são os nomes e apelidos que os escritores russos utilizam em suas histórias. Stephan é chamado de Steve e Stiva. Darya é Dolly; Kitty é Katerina. O filho de Anna, Sergei, é carinhosamente chamado de Seryozha, quase impronunciável. Não é confusão semelhante a que acontece em Cem Anos de Solidão, em que vários personagens têm o mesmo nome. Aqui, cada um tem, pelo menos, dois nomes pelos quais o autor se refere. Difícil guardar todos eles, principalmente por serem tão difíceis de serem pronunciados.

"Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira."
Tantos nomes e descrições longas (e às vezes inúteis) fazem de Anna Kariênina uma experiência não tão prazerosa. Divagações de alguns personagens, como Levin, chegam a ser chatas e maçantes. Das 654 páginas, muitas poderiam ser retiradas sem afetar em nada a história. As edições brasileiras têm alguns problemas de tradução, o que não é culpa do autor, mas ajuda o leitor a não gostar do livro. A que li tem letras miúdas que deixam a leitura cansativa.

Não culpemos Tolstói por minha experiência com Anna Kariênina. Fui com expectativas altas depois de ver o filme com Keira Knightley no papel de Anna. Talvez devesse ter começado por contos, com doses homeopáticas de literatura russa antes de embarcar num romance de quase 700 páginas

*Na edição lançada pela Cosac Naify, em 2010, lê-se Anna Kariênina. Em outras edições, temos Ana Karênina ou Anna Karenina. O nome do autor também foi traduzido de várias maneiras: Liev, Leo, Leon e Tolstói ou Tolstoy. Use a que quiser.