Mostrando postagens com marcador poesia. Mostrar todas as postagens

O carteiro de Neruda


Aperte o play.


Filmes normalmente entram em minha vida depois da indicação de alguém. O primeiro que veio e me tocou lá no fundo foi Cinema Paradiso, do Tornatore. Indicação do meu tio.
Depois veio Amélie Poulain. Clichê talvez, mas me marcou. Indicação de uma amiga.
E agora O Carteiro e o Poeta entrou para minha lista branca. Indicação de um professor.
Dirigido por Michael Radford, o filme mostra a amizade entre o poeta chileno Pablo Neruda e seu carteiro, no período em que o escritor ficou exilado na Itália.

"La poesia non è di chi la scrive, ma di chi gli serve.” - A poesia não é de quem a escreve, mas para quem precisa dela.

Mario, o carteiro, passa a pedir conselhos para Neruda, que vive recebendo cartas de mulheres por causa de suas palavras de amor, mesmo este tendo olhos somente para sua esposa, Matilde.
O carteiro se apaixona por Beatrice, a sobrinha de D. Rosa, dona de um bar da ilha.


Mario: “Don Pablo, vi devo parlare, è importante… mi sono innamorato!”
Pablo Neruda: “Ah meno male, non è grave c’è rimedio.”
Mario: “No no! Che rimedio, io voglio stare malato…” 

Mario: "Dom Pablo, preciso conversar, é importante... estou apaixonado!"
Pablo Neruda: "Ah, menos mal, não é tão grave... há remédio."
Mario: "Não, não! Que remédio! Prefiro ficar doente..."




Mario e Beatrice acabam se casando, tendo Pablo como padrinho. É durante a cerimônia que o poeta recebe a notícia de que pode retornar para seu país. 
O chileno parece ter esquecido de seu amigo italiano, o que me fez ficar desapontada. As pessoas podem deixar de se falar, mas eu, pelo menos, não consigo esquecê-las por completo. Alguma coisa fica guardada.

“Se voi non foste capitato nella mia vita, non lo avrei mai scritto.” - Se você não tivesse aparecido em minha vida, eu não teria escrito."


Neruda volta à ilha depois de cinco anos. Beatrice teve um filho, Pablito, que não conheceu o pai. Mario morreu poucos dias depois. Deixou uma gravação para o amigo. Mostra os sons da ilha, o barulho das ondas, do sino, do vento e do céu estrelado.
O Carteiro e o Poeta (Il Postino) mistura a poesia com o cotidiano, mostrando a essência dessa palavra: poesia. Ela mora nas pequenas coisas, nos detalhes. Um sorriso. Um cheiro. Uma voz. 

Mon amour, je t'aime

Trecho de Hiroshima, mon amour:

“Encontro você. Lembro-me de você. Essa cidade era feita nos moldes do amor. Você era feito nos moldes do meu corpo. Quem é você? Você me mata.
Devore-me. Deforme-me à sua imagem para que qualquer outro depois de você não entenda o porquê de tanto desejo.
Ficaremos sozinhos, meu amor. a noite não acabará. O dia não nascerá para ninguém. Nunca, nunca mais.
Você ainda me mata. Você me faz bem.
Choraremos o dia morto com consciência e boa vontade. Não teremos mais nada a fazer senão chorar o dia morto. O tempo passará. somente o tempo. E o tempo virá quando não saberemos que nome dar aquilo que nos unirá. O nome sumirá aos poucos de nossa memória. Depois ele sumirá completamente.”



"Rendez-vous. Je me souviens de vous. Cette ville a été faite dans le moule de l'amour. Vous avez été fait dans le moule de mon corps. Qui êtes-vous? Vous me tuez.
Devore moi. Déformer moi à son image de sorte que n'importe quel autre après vous ne comprenez pas pourquoi tant de désir.
Être seul, mon amour. la nuit ne finira pas. Le jour ne se lève pas pour n'importe qui. Jamais, jamais.
Vous me tue encore. Vous me faites bien.
Pleurerais jour tué par la sensibilisation et la bonne volonté. Nous n'aurons pas rien à faire que pleurer jour tué. Le temps passera. seul le temps. Et le temps viendra où nous ne saurons pas comment l'appeler ce qui nous unit. Le nom disparaît lentement de notre mémoire. Puis il disparaît complètement." 


Bem-vindo, meu amor



BEM-VINDO, MEU AMOR
Fabrício Carpinejar - Revista IstoÉ Gente - São Paulo, abril de 2013, p. 80, Edição Nº 696

"Bem-vindo, meu amor, nosso soluço não é mais do choro, agora é do riso, pelo excesso de alegria.
Deixe para trás os ossos dos homens que não souberam lhe amar. Os ossos não têm olhos.
Deixe as despedidas ingratas, a avareza dos outros.
Deixe o que não traz mais lembrança; mentiras jamais acalmam.
Não seremos prisioneiros da culpa e do remorso, não seremos reféns das incertezas.
Incertezas envelhecem, as dúvidas não.
Você cria mistérios, sou mais vivo porque me questiona, sou mais seu porque não para de me perguntar o que aconteceu.
Venha engolir vento comigo, inspirar o primeiro ar da manhã da estrada, lavar as mãos no solzinho tímido.
Vem comigo, amor, cheira meu pescoço. É cheirando meu pescoço que descobrirá se falo a verdade. O cheiro é minha confidência. Meu cheiro tem o seu cheiro. Transpiro o que leio em sua pele.
Amar só traz simplicidade.
Amar só traz humildade.
Amar antes só me trouxe para perto.
Para aqueles que pensam que caso e me separo com facilidade, você será minha contradição, a insistência da virtude, a volúpia dos sapatos.
E vamos rir de soluçar. Pois ninguém acreditou na gente, a não ser a gente. Temos a vantagem da intuição, amor.
Você dormiu colada em meu corpo desde o início. E não pedimos trégua, água, tempo.
Sua respiração me assobia, me canta, me compõe.
Você não escondeu nada de mim.
Você conversa comigo como se eu fosse seu próprio pensamento.
Você já fez minha barba para sentir o quanto custa ferir meu rosto.
Eu já penteei seus cabelos para sentir o quanto um nó puxa a cabeça para baixo.
Bem-vindo, amor, nosso passado é o nosso futuro.
Você escolhe a roupa na última meia hora de sono. Eu me visto de suas escolhas pelo resto do dia.

Bem-vindo, amor.
Brigaremos no supermercado para definir nossa janta. Faremos festa ao descobrir um pequeno aumento no salário. Puxaremos assunto com os garçons. Receberemos elogios de estranhos comovidos com nosso abraço e inveja dos casais mais antigos. Tocaremos os pés na madrugada e ficaremos com vontade de acordar. Encostaremos os braços nos filmes e ficaremos com vontade de dormir. Jamais trocaremos de lado na cama. Dividiremos o jornal de domingo. Gostaremos das mesmas coisas das vitrines. Seu número em meu telefone constará como um segundo nome. Seus anéis estarão dentro de meus livros. Minhas mãos estarão dentro de suas mãos.

Bem-vindo, amor.
Felicidade não é para ser vivida sozinha. Sozinha, ainda é segredo.
A felicidade é uma denúncia. Vou denunciá-la com um beijo.
Denunciá-la para minha eternidade."